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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Capítulo 2 - Cobras e calorias

Eu tinha um diário nessa época. Colocava lá toda minha rotina,  envolvendo dietas, quilos perdidos e medidas que diminuíam. -
Cheguei em casa meio fraca, olhei o espelho, que dizia o quanto eu era gorda, e deitei na cama com o livro no colo, angustiada.
Ouvi mais a vez a barriga roncar. Entrava um friozinho gostoso na janela. Sempre amei frio
 Puxei o edredom dos meus pés e abri o livro, minha parte preferida.
- Você devia comer. Sabe que precisa, não quer desmaiar ou algo assim, quer?
Era a voz de Marlon ao meu lado. Só mais um amigo imaginário. Ele aparecia quando eu precisava de um bom amigo, um bom conselho, uma "preocupação" de alguém que eu não pudesse mandar embora. Ele era meu melhor amigo. Eu achava que ele era meu anjo da guarda particular.
Não sei, eu as vezes acho que devia escutar você.
Ele riu.
- Sabe que sim. Se não comer, vão mandar você pro soro, o que não é nada bom.
- Não tenho medo de agulhas.
- Mas tem medo que descobrm você.
Engoli em seco. Ele tinha razão.
- Se eu comer 3 ou 4 bolachas...
- Não vai adiantar, sabe disso.
Dei de ombros. Claro que sabia.
Li 3 ou 4 páginas do livro, abaixei no colo e suspirei. Fiz as contas. Era quase duas horasda tarde, não comera nada hoje além da bala da Evilyn.
Segurei o diário, estacionado ao meu lado, no criado-mudo. Marquei 650kcal, contabilizando 60 da bala e 600 do almoço que eu ainda não comera.
Desci as escadas, vendo que podia cair de fraqueza a qualquer momento. Via tudo meio girando e fiz o possível pra chegar logo na cozinha. Fiz o prato contabilizando cem calorias de 2 colheres de arroz, 200kcal de um pedaço de galinha e 100kcal na salada cozida. Ótimo, só 400, pensei.
Comi devagar, mastigando o máximo possível cada garfada, sentindo nojo daquele cheiro que eu já perdera o costume de gostar.
Finalmente lavei o que tinha usado e tentei dizer a mim mesma que podia emagrecer sem colocar nada pra fora. Mas a força do hábito falou mais alto, e em minutos me vi ajoelhada em frente ao vaso sanitário, com a escova de dente na garganta, colocando pra fora o pouco que comi.
Deixei-me chorar por alguns minutos, certa de que minha vida estava sendo levada para lugar nenhum. Mas a obsessão não é algo que se livre facilmente.
***
Acordei desnorteada, sem saber o porquê dormi aquela hora da tarde. Mas é claro que era óbvio, estava sem dormir há três noites.
Tinha tido um sonho estranho. Eu estava no shopping com minha melhor amiga - ou  a que havia sido, em algum lugar remoto da infância. Ela escolhia sapatos, e eu, como nunca fui fã dessas coisas, dei atenção a uma loja de objetos diversos, e com duas cobras misturadas em cima da mesa, bem no centro da loja.
O único homem ali me entendeu. Usava um terno preto, uma gravata vermelha e era belo e elegante. Ele me sorriu e passou a me mostrar as coisas na loja, que eram simples. Relógios, fitas, DVD's e livros. Todas aquelas coisas me encantavam como se fossem barras de ouro.
- Te dou tudo isso de graça - o homem piscou um só olho - Se conseguir formar uma trança com essas cobras.
Estremeci. Nunca tive medo de cobras, mas também nunca mexi com elas. Resolvi tentar de todo o modo, afinal, valeria a pena. 
Na metade da tarefa, choraminguei e pensei em desistir. Como se soubesse, o vendedor me ofereceu ainda um anjinho de porcelana, um anel de asas e um amor.
Interessada no último prêmio, eu continuei até encontrar as cabeças, que tentavam me morder, e eu tive medo. Enfim, soltei.
- Não desiste ainda, se conseguir, além de todos os prêmios, te dou uma viagem.
Terminei a trança e fui picada pelas duas cobras.
Eu ainda não sabia, mas esse sonho bobo e maluco, era minha vida e meu futuro sendo narrado.

3 kcal:

Alie disse...

<3

a.girl disse...

Vou andar mais por aqui, acho que posso me sentir mais incentivada a fazer ao menos uma LF.

Maria Miguel disse...

espero que esteja tudo bem contigo =) *

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