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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Capítulo 1 - Zumbi

Bem, aqui vai um pouquinho mais pra vocês ;)


Abri os olhos, vendo que o sol finalmente nascia e eu mais uma vez não dormira. Minhas noites de insônia já eram comuns, nem lembrava qual fora a última vez que tivera uma noite de sono de verdade.
Estava em meados de maio, eu tinha dezoito anos e um futuro promissor. Era inteligente, gostava de ler e estudar e tinha uma intimidade excepcional com a escrita.
Mas, bem, eu não acreditava nisso.
Esfreguei os olhos e me forcei a levantar, apesar do cansaço. Eu até podia faltar aula e ficar dormindo (ou tentando), mas já tinha feito isso tantas vezes... E além disso, na escola eu tinha segurança contra compulsões e ficava livre das brigas com minha mãe.
Tomei um banho quente, deixando a água levar o sono embora. Coloquei a primeira roupa que vi, toquei a mochila nos ombros e saí. Ouvi o estômago roncar e ignorei. Comida faz você se tornar um boto gordo,  e eu já estava quase lá. Nos dois ônibus de meia-hora cada um que pegava para ir a escola, eu lia o tempo apesar da dor de cabeça fritando os miolos. Eu era assim. Ignorava o sono, ignorava a fome, ignorava a dor, e ignorava que estava doente e precisava de ajuda.
Outra coisa que ignorava, era a existência das pessoas. Não que as odiasse. Na verdade, amava a cada um dos meus colegas como se fossem amigos de anos. Mas nenhum sequer chegava perto, eu os afastava. Pessoas precisam comer, e muitas vezes te obrigam  a isso, colocando a culpa na "preocupação" delas. Por isso eu achava melhor ficar sozinha.
Bem, havia minhas duas amigas imaginárias, a Ana e a Mia. Esse é o apelido carinhoso que damos a nossas doenças, a anorexia e a bulimia. Elas não comem, e por isso mesmo, são lindas e magras. E me lembravam a todo instante que eu era gorda, e por isso mesmo, não precisava de comida ou de amigos.
Por coincidência, a menina que sentava comigo se chamava Ana. Ela era legal. E gosta de mim de verdade. Apesar de eu ter tentado me afastar dela, ela não desistiu de mim. Mas também não enche meu saco falando de saúde, e que eu preciso comer pra viver.
- Ei, Fran - ela sorriu e sentou sem falar mais nada, entrando em um assunto sobre anime ou qualquer outra coisa com as meninas da frente.
É estranho pensar nessa época da minha vida. Nem sei se aquilo uma vida exatamente. Eu estudava, lia, ia na igreja, tinha minhas atividades por lá. Mas tudo que eu fazia, ficava em segundo plano, porque estava obcecada. Como alguém apaixonada que só pensa naquela pessoa, eu só pensava em números, calorias, quilos e dietas. Por isso que as vezes eu misturo os acontecimentos nessa época, eu não os aproveitava.
Como se estivesse assistindo a vida passar do banco de trás.
Sinto até vergonha de dizer isso, mas apesar de gostar das minhas amigas na época, eu não os conhecia o suficiente para as descrever por aqui. Sei que Ana gostava de desenhar e curtia anime e Liege era divertida e gostava da banda da moda na época, Rayane e Fernanda vieram do norte ou nordeste e Ketlin era mais o estilo quieta (quase nunca vi ela falar)
Eu as ouvia muito. Elas gostavam de conversar comigo, e eu gostava de ouvir, porque me fazia fugir dos meus problemas. Mas confesso que o motivo dessa preferência pelos meus ouvidos é que eu sabia guardar segredos. E isso tem uma explicação: eu esquecia. Não que eu não prestasse atenção, não me levem  a mal, eu dava toda a atenção do mundo, porque elas também me ajudavam quando faziam as ouvir. Eu esquecia dos problemas delas, porque passava tempo demais preocupada com os meus.
Porém, havia uma menina em especial cujo problemas eu não esquecia. O problema é que ela sequer sabia da minha existência ou as ignorava. Se chamava Letícia, era do estilo emo, e tinha talvez o dobro do meu peso. Ela jamais falara comigo, mas eu sabia muitos detalhes sobre ela. Sabia que a avó estava doente e que era a única família que ela tinha.
Sabia que tinha dezesseis anos e um corte profundo recente no pulso direito e que tinha um estilete guardado dentro do allstar. Sabia que tinha um ex-namorado idiota que a chamara de gorda nos últimos dias e que fizera com que ela aderisse a "moda" da dieta radical. Não tinha certeza, mas acho que ela estava no terceiro dia de NF.
A aula com o professor Marcos, de educação física, começou com uma corrida. Dei um sorrisinho para mim mesma, pensando na quantidade de calorias que perderia com aquele exercício. Foi logo no início que lembrei que faziam cinco dias desde que fizera minha última refeição de verdade (as que não eram de verdade, não passam de cem calorias) e isso nunca me impediu de fazer exercício, claro. Mas senti um certo mal-estar, uma tontura, e não pretendia desmaiar para que perguntas não viessem me entregar depois. Por isso mesmo, escolhi ficar para trás, fingindo que corria. Letícia estava atrás de mim, parecendo também não estar bem. Evilin - a amiga dela, da qual eu não conhecia muito, mas sabia que tinha uma banda de rap rock da qual eu era fã - , surgiu com uma bala e fez que ela colocasse na boca. Açúcar ajuda nessas horas, e eu sabia disso.
Ela guardou a bala no bolso sem me oferecer, sabendo talvez que eu não aceitaria, mas eu a surpreendi.
- Me dá uma? - quase implorei.
Ela olhou de um lado a outro, procurando quem eu falava, até enfim, tirar uma bala do bolso e jogar para mim, sem abrir a boca.
Dei de ombros, colocando a bala na boca. O mal estar foi passando e eu fiz as contas. A bala devia ter sessenta calorias, então uma caminhada de três minutos acaba com ela.
***
Confesso que a trufa que minha colega vendia era tentadora. Não que eu gostasse de comer, na verdade, aderira a ideia de que comer era nojento e me dava ânsia de vômito. Mas sempre tive uma coisa que me tentava: morangos. Qualquer coisa feito com eles me deixam maluca, como uma criança com fome quando vê churrasco.
E Letícia tinha o mesmo problema que eu com chocolate. Por isso quando Evilyn apareceu com uma trufa de presente, ela não resistiu.
Vi discretamente a forma que ela comia, como se fosse ser a última vez, devagar e calmamente (eu normalmente comia assim, a não ser que seja uma compulsão, quando me transformo em uma enorme máquina de comer). Assim que terminou o doce, lambeu os lábios e saiu para o banheiro. Estávamos sem professor, então a segui discretamente. Cheguei no banheiro a tempo de vê-la entrar em uma das cabines. Entrei em outra, e logo vi os sons característicos do vômito induzido. Uma angústia forte contaminou meu peito e deixei-me cair no chão, o choro baixo vindo de dentro, como cachoeira.
Não sei até hoje o que fez com que eu me preocupasse com ela daquela forma. Talvez fosse porque me odiava demais para me preocupar comigo mesma, e sabendo o quanto aquilo me fazia sofrer, eu a acolhi como igual.
Mas o que aquele choro indefinido me fez pensar naquela época, foi algo muito maior do que realmente era. Acreditei estar apaixonada por uma menina pela primeira vez.

1 kcal:

Alie disse...

Interessante, continue postando :D
Lembra um pouquinho, de leve, abzurdah. É uma de suas influências?

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